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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Menino sem nome

Quando você ultrapassa seu conforto, quantos meninos vê? E quais são invisíveis?

1- Lá no canteiro, sentado, há um menino - de pele tostada, acobreada e envelhecida. Expressão sofrida, madura demais para a estatura que tem.
Cabelo louro-queimado, corpo frágil, magro, faminto, deve ter uns oito anos, quando muito.
São duas horas de uma tarde de sol intenso, doído, mas ele suporta, já não parece se importar ou sentir.
Nas mãos não gira uma bola ou carrinho, mas uma flanela, borrifador, rodo e esfregão. E, embora o sinal esteja vermelho, ele não trabalha; Cabisbaixo, imóvel. Olhando o chão, os pés, o vazio.
É o menino dos semáforos.
Todos passam e ele misturado a paisagem. Invisível.


2- Acabou de entrar no ônibus um outro personagem, outro garoto anônimo, sem nome nem sorte.
Parece ter 14 anos. Roupas sujas, rosto sujo. Pele morena, cicatriz nos lábios. Trás junto ao isopor de picolés, já pela metade, rancor na face e mágoa no peito. Olha de soslaio e com desdém. Puro ódio. Justificado. Cheio de razão.
O garoto picolezeiro observa um menino de cabelos compridos, bem cuidado, bem vestido, da mesma idade que a sua, porém, sem isopor nem picolés. Leva nos braços livros e esperança, o que falta ao moleque do picolé. Inexpressivo, não se sabe se o admira, inveja, despreza ou o condena pela oportunidade que não teve.
Viaja em pé, imperceptível.

3- Um amazonense vive em uma violenta periferia. Ele tem mais quatro irmãos e mãe; O pai foi tentar a sorte em outro país. Encontrou-a e ficou por lá. Isso tem mais de oito anos.
O pequeno não estuda, aliás, nenhum deles. Diz que precisa do imediato - comer, vestir, comprar, cheirar bem, e na escola não vê isso, não a curto prazo.
Tem catorze anos, é lourinho também.
Agora tem comida, celular, bicicleta, roupa e tênis da moda e menininhas. Ganha cento e cinqüenta reais por semana e quer comprar um terreno.
Virou aviãozinho. É o mais novo - recente e jovem -, vendedor de drogas da rua. Irrompe madrugadas e se aventura nessas vielas escuras cobrando dívidas do patrão.
Meio infantil, com leve ar de rebeldia, não assusta ninguém... A menos que tenha uma pistola carregada na cintura. E ele tem.
O menino-avião é mais um vulto.

São todos meninos invisíveis. E ainda há muitos mais.
Quantos meninos você vê? Ou não vê?

8 Flores:

Lury Sampaio disse...

É triste como muitas pessoas fecham os olhos e preferem viver em suas vidas perfeitas em vez de olhar em volta e ver que a perfeição não existe.
E de olhos vendados caminham esses meninos, incertos de um amanhã...

Paulo Tamburro disse...

BYANKA,

é o que chamamos de injustiça social, excluídos e marginais.

Veja como esta sociedade hipócrita, sabe adjetivar e dar nomes para tudo e todos.

É como se ao dizermos que esta criança é uma excluída, vitima da histórica e incurável injustiça social e que, por isso, marginalizou-se, os governantes e o próprio cidadão exorcizasse sua responsabilidade de trazer aquele ser humano, para o nosso convívio normal.

Se é isso, é porque é aquilo, se não tem aquilo é porque não fez isso!

E por aí vai.

Então os noticiários se empanturram de misérias e desgraças e o povo para livrar-se das suas culpas internas, ouvem, vêêm e comentam todos as atrocidades que são veiculadas na imprensa.

Quando acaba o Jornal elas se debruçam nas mixordias, e devassidão de outros personagens das novelas, então a realidade, fica sempre escondida dentro da nossa hiprocrisia de achar que com aquele nome, o responsável é aquele outro.

Parabéns Byanka, por você trazer a verdade, o mundo como ele é , e preoucupar-se com aquilo que deve ser feito.

Creia Byanka, você pode não ser um sol , mas está acendendo o seu fóforo, em função de uma causa, e a isto, chama-se: Cidadania.

Tenho um blog de humor: HUMOR EM TEXTO, é lá que me refugio(rs).

Um abração carioca!

Jeniffer disse...

Vejo muitos invisiveis. Esse texto me fez lembrar os capitães da areia, de jorge amado, belissimo texto, triste, mas real. As vezes é mais facil ignorar, pra evitar a magoa de perceber as injustiças, e a falta de esperança pra que um dia esse quadro mude.

Mas encarar faz as coisas mudarem. Esperança, textos como esses me fazem ter esperança.

Fred Caju disse...

Ótimo! Talvez lhe interesse: http://fredcaju.blogspot.com/2010/06/criancas-da-teve-criancas-da-rua.html

Fred Caju disse...

Ótimo! Talvez lhe interesse: http://fredcaju.blogspot.com/2010/06/criancas-da-teve-criancas-da-rua.html

Fred Caju disse...

Agradeço pelas palavras, se tiver alguma hora livre no sábado, apareça!

Bernard disse...

Bia!
Escreves bem.

Priscila disse...

Apenas Brasil... apenas.

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